Blur – The Magic Whip (2015)

Depois de 12 anos sem lançar material inédito, a banda composta pelos vocalistas Damon Albarn e Graham Coxon, pelo baixista Alex James e pelo baterista Dave Rowntree, volta com um trabalho bom, que honra o seu passado como uma das maiores representantes do britpop dos anos 90, junto com o seu principal rival, o Oasis dos polêmicos irmãos Gallagher.

O álbum contém 12 faixas e foi produzido pelo Stephen Street, que trabalha com a banda desde o seu início. Gravado em Londres e Hong Kong, ele foi lançado pelo selo da Parlophone.

“New World Towers” é a segunda música do disco e tem um ritmo bem intimista e fala na sua letra da vida agitada em grandes metrópoles. O cenário descrito na música remete a Hong Kong, pois há muitas referências a grandes empreendimentos comerciais e letreiros luminosos. Há nela uma reflexão bastante pertinente da solidão que é comumente encontrada no meio da correria do trabalho em cidades grandes. Também há uma crítica velada a quem valoriza mais a manutenção de um padrão de vida do que cuidar das relações pessoais, algo que está dito de forma implícita no refrão “Love, love, so far away. New World Towers”.

A faixa seguinte “Go Out”, é a canção com a melodia e o refrão mais grudentos, isso pode  ser explicado pelo fato de que muitos versos são repetidos exaustivamente. A bateria de Dave Rowntree é o instrumento que mais se destaca, sendo uma das responsáveis pelo ritmo chiclete da música, algo que, diga-se de passagem, não é ruim, pois assim a música se torna divertida e gostosa de se ouvir.

“Ice Cream Man” tem um título que remete a capa do disco, que é um letreiro luminoso em formato de sorvete. Apesar de ter uma letra pouco criativa, chegando ao ponto de “something new” ser repetido em duas estrofes com quatro versos cada, ela tem seu valor por ter um ritmo infantil bem agradável. Conseguir sem simples sem ser simplória é a maior qualidade dessa música, que cativa quem a ouve.

“I Broadcast”, assim como a “New Word Towers”, também fala da vida em uma grande metrópole, mas há nela um foco na vida noturna. A voz de Albarn se adéqua de uma forma sublime com o baixo de Alex James, tornando a música bem dançante e agitada. Apesar de não ter o mesmo protagonismo que teve em “Go Out”, a bateria de Rowntree também contribui para a agitação da canção. O arranjo é construído de forma totalmente harmônica, fazendo com que cada instrumento cumpra seu papel aceitavelmente. Todos esses fatores fazem que essa música seja a melhor do disco.

The Magic Whip compensa todos os anos de espera que os fãs de Blur tiveram que passar, ressuscitando a era de ouro do britpop. Com músicas inesquecíveis e com a melodia gostosa, ele agrada tanto aqueles que preferem algo mais introspectivo e reflexivo, quanto os que curtem músicas para dançar. Servindo como um ótimo meio de relaxar e fugir da rotina estressante das grandes metrópoles. Esse álbum foi um dos melhores lançamentos de 2015.

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Conheça as mulheres que representam 3,5% dos filmes mais populares do IMDB

Um grupo de 29 mulheres estão representadas na lista dos 1000 filmes mais acessados do site especializado de cinema, IMDB (Internet Movie Database). Com uma quantidade de 35 longas nessa lista, elas representam 3,5% do total.

Ganhadoras e indicadas a premiações como Oscar e Cannes figuram nesse seleto conjunto. Assim como atrizes que decidiram enveredar pelo trabalho por trás das câmeras.

Do ranking, se destacam Greta Gerwig, do vencedor do Globo de Ouro, Lady Bird, Patty Jenkins, do blockbuster Mulher Maravilha, e Dee Rees, do indicado ao Oscar, Lágrimas sob o Mississipi. Esses longas estão entre os 100 primeiros da lista. Também merecem atenção especial Kathryn Bigelow, que possui quatro filmes na lista, Sofia Coppola, com três, e Amy Heckerling, com dois.

Essas mulheres ocupam posição de destaque dentro do ramo do entretenimento, algo que representa um contraponto a polêmica que se deu em 2017, ano marcado pelas acusações de assédio contra homens que exerciam cargos de autoridade na indústria cinematográfica, sobretudo em Hollywood.

O produtor Harvey Weinstein, da Weinstein & Co., foi acusado por diversas atrizes, como Uma Thurman e Jennifer Lawrence. Também receberam acusações nomes como o do ator Kevin Spacey, que perdeu o papel na série House of Cards, na qual era protagonista. Por conta dessa repercussão, foram reavivadas polêmicas antigas, como a do diretor Woody Allen, que é acusado pela sua filha, Dylan Farrow, de abuso.

Dos holofotes para atrás das telas

Desse conjunto de diretoras, sete também tiveram experiências com atuação. O exemplo mais famoso é da Angelina Jolie, que tem uma extensa filmografia como atriz, estrelando sucessos como Tomb Raider, Sr. e Sra. Smith e Garota Interrompida. Angelina está nos mais acessados do site com o filme O Invencível, de 2014.

A comparação das obras dela como atriz e diretora é difícil, pois já atuou desde filmes infantis até dramas psicológicos, enquanto como direção seu foco é maior no gênero dramático.

Mais uma artista conhecida por sua atuação a enveredar pela direção é Elizabeth Banks, que conduziu a obra A Escolha Perfeita 2, também na lista dos filmes mais populares. Tanto como atriz e diretora é reconhecida por seu trabalho na comédia, apesar de também atuar em papéis dramáticos e de terror.

Outras mulheres que trabalharam como atrizes e diretoras são April Mullen, Hallie Meyer e Bethanny Ashton.

Greta Gerwig e Sofia Coppola, que têm filmes entre os 100 mais populares ou dirigiram mais de um filme entre os 1000, também tiveram experiências com atuação. A seguir, conheça mais sobre o perfil desse grupo, que também é integrado por  Kathryn Bigelow, Patty Jenkins, Dee Rees e Amy Heckerling.

Greta Gerwig

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Greta tem 34 anos, nasceu em Sacramento, na Califórnia e possui ascendência alemã, irlandesa e inglesa. Além da direção, na indústria cinematográfica tem experiências nas funções de roteirista e atriz. É conhecida por ter feito o papel principal no filme de 2012, Frances Ha, dirigido por Noah Baumbach, diretor com quem trabalhou também em O Solteirão, de 2010.

Atuou em Para Roma Com Amor, de Woody Allen, lançado em 2012. Em vista as acusações de assédio envolvendo o diretor, Greta declarou, em entrevista ao The New York Times, que se arrepende de ter trabalhado com ele e que não faria isso de novo.

Participou do elenco de Jackie, cinebiografia de Jackie Kennedy lançada em 2016 por Pablo Larraín.

Sua estreia na direção foi em 2008, quando co-dirigiu com Joe Swanberg o filme Night and Weekends. A dupla também atuou como o casal protagonista.

Mas foi com Lady Bird, drama semi-autobiográfico lançado em 2017, que ela impulsionou sua carreira. O longa ganhou o Globo de Ouro de melhor Comédia ou Musical, apesar de Greta ter perdido na categoria de direção para Guillermo Del Toro, por A Forma Da Água.  

No Oscar, Lady Bird concorreu em cinco categorias – filme, direção, atriz, atriz coadjuvante e roteiro original-. Greta é a quinta mulher a concorrer na categoria de melhor direção. Somente Kathryn Bigelow ganhou o prêmio, por seu trabalho em Guerra Ao Terror, de 2008.

Os filmes nos quais atuou guardam similaridades com sua breve filmografia como diretora. Tanto Frances Ha, Para Roma Com Amor e Jackie, nos quais ela participa como atriz, quanto Nights and Weekends e Lady Bird, são dramas com uma certa carga reflexiva.

Patty Jenkins

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Tem 46 anos e começou como pintora na escola de artes Cooper Union, em Nova York. Na transição para o trabalho de cineasta passou oito anos como assistente de câmera em comerciais e clipes musicais.

Tem experiência em séries televisivas, tendo dirigido episódios das comédias Arrested Development, Entourage e o piloto do drama  Betrayal.

Sua obra mais conhecida é a adaptação cinematográfica dos quadrinhos da Mulher Maravilha, lançada em 2017. De acordo com o IMDB, o filme é o de maior bilheteria entre aqueles dirigido por mulheres. A obra arrecadou 653 milhões de dólares e é a 66ª mais rentável. Patty se encontra em processo de pré-produção da sequência do longa sobre a heroína.

Também dirigiu e escreveu o drama Monster: Desejo Assassino, de 2003.

Dee Rees

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É roteirista e diretora. Seu principais trabalhos são os dramas Pariah, de 2011, Bessie, de 2015, e Mudbound: Lágrimas sob o Mississippi, de 2017.

É a primeira mulher negra a ser indicada a melhor roteiro adaptado no Oscar, no qual concorreu com Mudbound.

No começo dos anos 2000, fez MBA e pretendia trabalhar no ramo de negócios, mas não achou satisfação nisso e começou a estudar cinema na New York University.

Está trabalhando na produção do drama An Uncivil War, cinebiografia da jornalista e feminista Gloria Steinem.  

Kathryn Bigelow

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Tem 66 anos e suas primeiras experiências foram como pintora. Passou dois anos estudando no Instituto de Arte de São Francisco e conseguiu bolsa de estudos no Whitney Museum of American Art .

Ao começar os estudos de cinema na escola de artes da Universidade de Colûmbia, iniciou sua experiência  no universo dos filmes .

É a única mulher que ganhou o Oscar de melhor direção, por Guerra Ao Terror, que desbancou o então favorito Avatar, de 2009, dirigido pelo seu ex-marido James Cameron. A obra também levou o prêmio de melhor filme, roteiro original, edição, mixagem sonora e edição de som.

Também tem em seu currículo o longa A Hora Mais Escura, de 2012, sobre a operação militar que matou o líder da organização terrorista Al Quaeda, Osama Bin Laden. A película rendeu indicações ao Oscar de melhor filme, atriz, roteiro original e edição, e ganhou o de melhor edição de som.

Para televisão já dirigiu episódios do drama Homicide: Life On Streets e da mini-série Wild Palms.

Seu filme mais recente é o drama Detroit em Rebelião, de 2017.

No mundo da música, dirigiu o videoclipe Touched By The Hand of God da banda New Order.

Sofia Coppola

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Tem 46 anos e é a segunda mulher a ganhar o Cannes de melhor direção, pelo filme O Estranho Que Nós Amamos, de 2017. A primeira foi a russa Yulliya Solntseva, por A Epopéia dos Anos de Fogo, de 1961.

Suas obras costumam ser dramas que retratam com profundidade o universo feminimo, caso de Virgens Suicidas, de 1999, Maria Antonieta, de 2006, e também da película que lhe rendeu o Cannes. Trabalha muito com a atriz Kirsten Dunst, que participou desses três filmes.

É vencedora do Oscar de melhor roteiro original, por Encontros e Desencontros, de 2003, que também figurou nos indicados de melhor filme e direção.

Possui breve experiência como atriz. Já participou da franquia O Poderoso Chefão, dirigida por seu pai, Francis Ford Coppola, e fez uma ponta em Star Wars Episódio I – Ameaça Fantasma.

Os filmes que participou atuando não guardam semelhanças de gênero com os quais dirige, já que atuava em obras que continham mais ação e aventura e conduz filmes com uma marca mais reflexiva e dramática.

Dirigiu o especial de natal da Netflix, a Verry Murray Christmas, protagonizado pelo ator Bill Murray – também astro de Encontros e Desencontros – e com a participação de diversos artistas, como George Clooney, Michael Cera e Miley Cyrus

Foi casada com o cineasta Spike Jonze e atualmente é esposa de Thomas Mars, vocalista da banda francesa de rock alternativo, Phoenix. Tendo inclusive dirigido o videoclipe da música Chloroform da banda. Também já dirigiu a música I Just Don’t Know What To Do With Myself, da banda The White Stripes.

Amy Heckerling

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Tem 65 anos e é  formada em cinema e TV na New York Film University e tem mestrado no American Film Institute. Chamou a atenção do grande público com o filme Picardias Estudantis, de 1982. O gênero que se destaca em suas películas é a comédia.

Entre suas obras mais famosas também estão Olha Quem Está Falando, de 1987, e Patricinhas de Beverly Hills, de 1995. Eles renderam a sequência Olha Quem Está Falando Também, de 1989, e a série de TV de Patricinhas de Beverlly Hills, que durou entre 1996 e 1999.

Entre seus trabalhos recentes estão a direção de episódios das séries de televisão Gossip Girl e Carrie Diaries.

É engajada no movimento ambientalista.

Confira a filmografia de todas as 29 diretoras

Obs:

Todas as informações e imagens foram tiradas do site IMDB.

A pesquisa considerou os filmes lançados entre 28/12/1895, data do primeiro filme da história, e 22/02/2018, dia da pesquisa.

 

Melhores de 2017

  1. Manchester à Beira-Mar (Kenneth Lonergan)

2. Bom Comportamento (Irmãos Safdie)

3. O Estranho que Nós Amamos (Sofia Coppola)

4. Paterson (Jim Jarmusch)

5. Jackie (Pablo Larraín)

6. Bingo (Daniel Rezende)

7.Silêncio (Martin Scorsese)

8. Duas Irenes (Fabio Meira)

9. A Guerra dos Sexos (Jonathan Dayton e Valerie Faris)

10. Roda Gigante (Woody Allen)

11. Era o Hotel Cambridge (Eliane Caffé)

12. Como Nossos País (Laís Bodansky)

13. O Filme da Minha Vida (Selton Mello)

14. Frantz (François Ozon)

15. Personal Shopper (Olivier Assayas)

16. Lion (Garth Davis)

17. Fome de Poder (John Lee Hancock)

*Lista pessoal e para fins documentais.

**Foram considerados alguns filmes do final de 2016 por terem entrado no circuito brasileiro apenas em 2017.

***Pelo mesmo motivo não foram considerados alguns filmes do final de 2017.

Duas Irenes

O filme Duas Irenes, primeiro longa metragem dirigido por Fabio Meira, é centrado na vida de duas famílias que vivem no interior de Goiás. Tonico (Marco Ricca) é o patriarca dessas  famílias e leva duas vidas paralelas, uma ao lado da esposa Neuza (Inês Peixoto) e a filha Irene (Isabela Torres), e outra com a mulher Mirinha (Suzana Ribeiro) e as filhas Solange (Maju Souza), Cora (Ana Reston) e Irene (Priscila Bittencourt).

O enredo da película começa a tomar forma quando a Irene de Mirinha  descobre que seu pai possui outra família, a partir daí ela começa a fazer amizade com a Irene de Neuza, mas sem revelar que elas são irmãs por parte de pai e se apresentando  com o nome da empregada da família, Madalena, não como Irene. Além de possuírem o mesmo nome, ambos escolhidos por Tonico, as duas possuem a mesma idade, 13 anos.

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A trama, baseada em um caso de um pai que mantinha duas famílias e onze filhos, tem a qualidade de apresentar uma história de maneira genuinamente real, fazendo com que o espectador sinta que o que está sendo contado é algo que perfeitamente poderia acontecer e acontece em diversas cidades brasileiras. Não há explorações exageradas das situações narradas no filmes, com cenas feitas de um modo simples, mas com uma aura de autenticidade. Desde os jantares em família até as idas das duas Irenes ao cinema, tudo é feito de maneira que é possível imaginar pessoas reais na tela, não apenas personagens construídos com base em arquétipos pré-estabelecidos.

O longa também trata de temas como as descobertas da adolescência, dos primeiros amores e das paqueras, algo que é bastante realçado quando as Irenes vão ao cinema atrás de beijar uns garotos. Nessa fase da vida, as duas demonstram, cada uma à sua maneira, serem bastante independentes. A Irene de Mirinha, apesar de ser tímida, também mostra um comportamento rebelde quando presencia situações que considera injustas, essa rebeldia é acentuada quando, por descobrir o segredo de Tonico, passa a parar de chamá-lo de pai e o chama apenas pelo nome. Enquanto a Irene de Neuza apresenta um comportamento bem mais doce, apesar de também ter uma personalidade forte e demonstrar não aceitar passivamente injustiças, a cena final do filme exemplifica claramente esse comportamento.

Nas atuações se destaca a da Priscila Bittercourt, que mesmo com apenas 16 anos, consegue cumprir com maestria a tarefa de representar a protagonista do filme, demonstrando com naturalidade as inseguranças, medos e alegrias da personagem. A jovem de 18 anos Isabela Torres, que faz a outra Irene também desempenha satisfatoriamente o seu papel, dando um toque de energia, simpatia e também inseguranças para a outra metade das duas Irenes.

Mesmo com essas qualidades, o filme ainda poderia aproveitar outras potencialidades do roteiro, como explorar mais outros personagens, tais como a empregada Madalena e a Cora, irmã mais nova da Irene de Mirinha, porque ainda que as duas tenham um certo relevo dentro da trama, poderiam ser melhor aproveitadas. Principalmente as cenas nas quais Madalena dá conselhos para Irene, que poderiam acontecer em momentos-chave da trama, além do fato de que a ingenuidade infantil de Cora poderia auxiliar como um contraponto a rebeldia de Irene e o fato de Tonico manter duas famílias paralelamente.

No entanto, a decisão do diretor de centrar toda a trama nas personagens das Irenes é algo que trouxe um resultado bom, ao apresentar uma história envolvente e contada de uma maneira autêntica.

Pelo trabalho no filme, Priscila Bittencourt e Isabela Torres concorreram na categoria atriz revelação no 67º Festival de Berlim, na Alemanha. Duas Irenes ganhou o prêmio da crítica no Festival de Gramado, no Rio Grande do Sul, e levou os Kikitos de melhor ator (Marco Ricca), roteiro (Fabio Meira) e direção de arte (Fernanda Carlucci).

Nota: 9,5/10

O estranho que nós amamos

A trama deste filme, que se passa durante a Guerra Civil americana, é centrada na relação entre um cabo da União, chamado John McBurney (Colin Farrell) e as habitantes de um internato de mulheres, as jovens Amy (Oona Laurence), Edwina (Kirsten Dunst), Alicia (Elle Fanning) e Martha Farnsworth (Nicole Kidman), que gerencia o local.

A produção é dirigida pela Sofia Coppola e é baseada no livro de Thomas Culliman, que já foi adaptado para o cinema em 1971, em um filme dirigido por Don Siegel e protagonizado por Clint Eastwood.

Os caminhos do cabo e das mulheres se cruzam quando Amy vai dar um passeio no bosque e acha John ferido. Ela então decide levá-lo para o internato para que lá receba cuidados até se recuperar.

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O longa conta com poucos cenários, o enredo se desenrola basicamente dentro do internato e nos seus arredores, como o bosque onde o cabo foi achado. Os personagens também são poucos, se resumindo praticamente ao John e às mulheres do internato. Essa característica do filme facilita que os personagens e as relações estabelecidas entre eles sejam densas psicologicamente, permitindo explorar várias camadas da personalidade deles.

No elenco, destaque para Elle Fanning, que soube imprimir o tom certo de ambiguidade e dissimulação em Alicia, e também para Colin Farrell, que cumpre perfeitamente o papel de seu personagem, que é causar dúvidas quanto o seu potencial de ameaça e, por esse motivo, contribui para o clima de desconfiança e conflito entre as habitantes do internato, dentre as quais duas, Alicia e Edwina, que se interessam por ele.

Por este trabalho, Sofia Coppola conquistou o prêmio de Melhor Direção no festival de Cannes. Reconhecimento para uma obra que privilegia a construção dos personagens, dando um tom humano e próximo da realidade, além de abordar a Guerra Civil americana de uma perspectiva alternativa àquela que é centrada no combate armado e nas motivações políticas que levaram ao conflito entre Sul e Norte dos Estados Unidos.

 

Nota 10/10

Real – o plano por trás da história

Real – o plano por trás da história é um filme dirigido por Rodrigo Bittencourt e trata sobre a plano econômico que implantou o Real como moeda oficial brasileira e trouxe para níveis normais a alarmante inflação que atingia o país desde o começo da década de 80. O enredo se passa em sua maior parte na década de 90 e é centrado no economista Gustavo Franco (Emílio Orciollo Neto), que participou da equipe que ajudou a criar o Real, junto de outros nomes como Pérsio Arida (Guilherme Weber) e Edmar Bacha (Giulio Lopes) e sob o comando do então presidente do Banco Central Pedro Malan (Tato Gabus Mendes), do ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso (Norival Rizzo) e do Presidente da República Itamar Franco (Bemvindo Siqueira).

Quem for assistir esse filme esperando uma história que, por tratar de assuntos como política e economia, seja apresentada de maneira sisuda tal como um drama político de Oliver Stone, vai se decepcionar ao se deparar com o uso abusivo de fases de efeito e de atuações exageradas que em alguns casos beiram ao ridículo, principalmente nas cenas com o Fernando Henrique e o Itamar, que parecem saídas de uma esquete do Casseta & Planeta. Outro ponto que pode afastar o espectador é a maneira pouco didática que ele apresenta os temas econômicos e políticos, muito pouco da ideia que deu origem ao plano é entendida pelo público se não houver um conhecimento prévio do tema.

Quanto a escolha do protagonista do filme, há pontos positivos e negativos, a vantagem de ter o Gustavo Franco como personagem principal do filme é tornar a película mais atrativa e chamativa para o público, posto que a personalidade de Franco é naturalmente controversa, competitiva e autocentrada, o que facilita a formação de frases de efeito que o público facilmente assimila, ao mesmo tempo que dá um ritmo mais palatável para um enredo que, pelo assunto abordado, poderia se tornar monótono. No entanto há um problema em se dar tanto destaque a Franco, pois o filme acaba sendo muito mais uma cinebiografia dessa personalidade do que uma história sobre o Plano Real, isso é evidente se for observado o fato de que as ideias e discussões sobre o plano em si tem muito menos espaço no filme do que a trajetória de Franco, já que se somarmos a quantidade de tempo do enredo reservado para a vida acadêmica, pessoal e para atuação de Gustavo Franco já depois do implantação do Real, seja como presidente do Banco Central, seja a entrevista que ele dá para uma jornalista sobre o seu depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava em 2003 o caso de corrupção no Banestado, fica bem maior que o tempo disponibilizado para explicar de fato no filme como se deu a origem da elaboração do Plano Real.

Personagens importantes para o Real foram eclipsados pelo Franco, caso dos economistas André Lara Resende e Pérsio Arida, que observaram a característica inercial da inflação brasileira, ou seja, boa parte da alta da inflação acontece por conta de expectativa de inflação, que faz com que os agentes do mercado reajustem os seus contratos na expectativa de uma inflação alta e isso acaba gerando um aumento da inflação no futuro. Uma economia que sofre muita influência desses reajustes de contrato com base em expectativa de inflação alta é chamada de indexada, para desindexar a economia brasileira, o Lara Resende e o Arida propuserem a criação de uma segunda moeda, que funcionaria paralela a principal. Pela proposta, que ficou conhecida como “Larida”, a moeda principal sofreria todos os efeitos da inflação enquanto a paralela passaria a ser valorizada e serviria de transição para uma nova que substituiria a moeda vigente. Isso foi posto em prática parcialmente durante o Plano Cruzado, em 1986, mas seu sucesso aconteceu em 1994, com o Cruzeiro Real, unidade monetária vigente da época, absorvendo os efeitos inflacionários, enquanto havia uma valorização da Unidade Real de Valor (URV), moeda que não existia, era  puramente virtual e que só funcionava porque a  população foi convencida de que ela tinha valor. O sucesso da URV permitiu que o Cruzeiro Real deixasse de ser adotado e fosse substituído por uma moeda forte, que é o Real.

Sobre a parte de montagem e encadeamento das cenas do longa, o filme peca por trazer cortes muitos abruptos entre uma cena e outra, além do roteiro não contribuir com diálogos  que facilitem a transição entre as cenas, apresentando muitas falas de personagens cujo raciocínio parece ter sido cortado no meio.

Apesar desses defeitos, no geral o filme é bom. Se não forem depositadas grandes expectivas de que seja um filme sério que explore de maneira profunda a política e economia brasileira e de que tenha personagens com psicológicos complexos, dá para absorver dele uma experiência divertida, visto que ele apresenta temas sérios e que poderiam ter um risco de serem apresentados de forma mais entediante, com um tom leve, ao mesmo tempo que não negligencia, ainda que isso não seja feito de forma suficientemente didática, os principais pontos dos fatos políticos e econômicos que circundam o Plano Real e a trajetória de Gustavo Franco.

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Animais Noturnos

O longa-metragem Animais Noturnos, dirigido pelo estilista Tom Ford, entrelaça na sua trama três linhas narrativas, a principal  é centrada em Susan (Amy Adams), importante curadora de um museu de arte. Essa linha origina outras duas, a primeira é o enredo do livro “Animais Noturnos”, de Edward (Jack Gylenhaal), ex-marido de Susan que envia para ela o escrito cujo desenrolar acontece conforme a personagem de Adams faz a leitura na trama principal e a segunda são os flashbacks que Susan tem da época em que ela e Edward eram casados.

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O destaque do filme é justamente saber encaixar essas três linhas narrativas, o roteiro e a direção, obras do estilista e cineasta novato Tom Ford, são construídos de forma que não há mudanças abruptas na passagem de uma história para outra, mesmo que as três tenham seus enredos próprios. Como já apontado, a linha principal trata de Susan como uma importante curadora de artes, os flashbacks dela com o personagem de Jake têm uma relação mais direta com o enredo original, mas o livro de Edward possui uma narrativa totalmente diversa, visto que é centrado em um pai de família, também vivido por Jake Gylenhaal, que busca vingança depois de um encontro na estrada com um grupo de criminosos liderados por Ray Marcus (Aaron-Taylor Johnson), cuja consequência foi o assassinato de sua mulher, também interpretada por Amy Adams e filha (Ellie Bamber).

Quanto ao elenco, os protagonistas Jake Gylenhaal e Amy Adams cumpriram seu papel e deram a profundidade necessária para os seus personagens, apesar disso, suas atuações não entregaram nada que já não foi mostrado anteriormente, como em O Abutre (Dan Gilroy) e Homem Duplicado (Dennis Villeneuve) no caso de Jake e Grandes Olhos (Tim Burton) e O Vencedor (David O. Russel) no caso de Adams. Isso não acontece por exemplo com a atuação de Aaron-Taylor Johnson ao interpretar Ray Marcus, personagem assassino do livro “Animais Noturnos”, nesse trabalho ele mostrou que se sai bem em películas mais complexas do que aquela baseada nos quadrinhos do Kick Ass (Matthew Vaughn), no qual ele interpretou o justiceiro protagonista. A atuação de Aaron teve seu valor reconhecido ao ganhar o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Globo de Ouro, único que Animais Noturnos levou na premiação.

Em linhas gerais, o filme não tem só uma, mas três histórias boas e sua principal qualidade é saber encaixar esses diferentes enredos, além de contar com um elenco competente que soube explorar o psicológico dos personagens.