O estranho que nós amamos

A trama deste filme, que se passa durante a Guerra Civil americana, é centrada na relação entre um cabo da União, chamado John McBurney (Colin Farrell) e as habitantes de um internato de mulheres, as jovens Amy (Oona Laurence), Edwina (Kirsten Dunst), Alicia (Elle Fanning) e Martha Farnsworth (Nicole Kidman), que gerencia o local.

A produção é dirigida pela Sofia Coppola e é baseada no livro de Thomas Culliman, que já foi adaptado para o cinema em 1971, em um filme dirigido por Don Siegel e protagonizado por Clint Eastwood.

Os caminhos do cabo e das mulheres se cruzam quando Amy vai dar um passeio no bosque e acha John ferido. Ela então decide levá-lo para o internato para que lá receba cuidados até se recuperar.

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O longa conta com poucos cenários, o enredo se desenrola basicamente dentro do internato e nos seus arredores, como o bosque onde o cabo foi achado. Os personagens também são poucos, se resumindo praticamente ao John e às mulheres do internato. Essa característica do filme facilita que os personagens e as relações estabelecidas entre eles sejam densas psicologicamente, permitindo explorar várias camadas da personalidade deles.

No elenco, destaque para Elle Fanning, que soube imprimir o tom certo de ambiguidade e dissimulação em Alicia, e também para Colin Farrell, que cumpre perfeitamente o papel de seu personagem, que é causar dúvidas quanto o seu potencial de ameaça e, por esse motivo, contribui para o clima de desconfiança e conflito entre as habitantes do internato, dentre as quais duas, Alicia e Edwina, que se interessam por ele.

Por este trabalho, Sofia Coppola conquistou o prêmio de Melhor Direção no festival de Cannes. Reconhecimento para uma obra que privilegia a construção dos personagens, dando um tom humano e próximo da realidade, além de abordar a Guerra Civil americana de uma perspectiva alternativa àquela que é centrada no combate armado e nas motivações políticas que levaram ao conflito entre Sul e Norte dos Estados Unidos.

 

Nota 10/10

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Real – o plano por trás da história

Real – o plano por trás da história é um filme dirigido por Rodrigo Bittencourt e trata sobre a plano econômico que implantou o Real como moeda oficial brasileira e trouxe para níveis normais a alarmante inflação que atingia o país desde o começo da década de 80. O enredo se passa em sua maior parte na década de 90 e é centrado no economista Gustavo Franco (Emílio Orciollo Neto), que participou da equipe que ajudou a criar o Real, junto de outros nomes como Pérsio Arida (Guilherme Weber) e Edmar Bacha (Giulio Lopes) e sob o comando do então presidente do Banco Central Pedro Malan (Tato Gabus Mendes), do ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso (Norival Rizzo) e do Presidente da República Itamar Franco (Bemvindo Siqueira).

Quem for assistir esse filme esperando uma história que, por tratar de assuntos como política e economia, seja apresentada de maneira sisuda tal como um drama político de Oliver Stone, vai se decepcionar ao se deparar com o uso abusivo de fases de efeito e de atuações exageradas que em alguns casos beiram ao ridículo, principalmente nas cenas com o Fernando Henrique e o Itamar, que parecem saídas de uma esquete do Casseta & Planeta. Outro ponto que pode afastar o espectador é a maneira pouco didática que ele apresenta os temas econômicos e políticos, muito pouco da ideia que deu origem ao plano é entendida pelo público se não houver um conhecimento prévio do tema.

Quanto a escolha do protagonista do filme, há pontos positivos e negativos, a vantagem de ter o Gustavo Franco como personagem principal do filme é tornar a película mais atrativa e chamativa para o público, posto que a personalidade de Franco é naturalmente controversa, competitiva e autocentrada, o que facilita a formação de frases de efeito que o público facilmente assimila, ao mesmo tempo que dá um ritmo mais palatável para um enredo que, pelo assunto abordado, poderia se tornar monótono. No entanto há um problema em se dar tanto destaque a Franco, pois o filme acaba sendo muito mais uma cinebiografia dessa personalidade do que uma história sobre o Plano Real, isso é evidente se for observado o fato de que as ideias e discussões sobre o plano em si tem muito menos espaço no filme do que a trajetória de Franco, já que se somarmos a quantidade de tempo do enredo reservado para a vida acadêmica, pessoal e para atuação de Gustavo Franco já depois do implantação do Real, seja como presidente do Banco Central, seja a entrevista que ele dá para uma jornalista sobre o seu depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava em 2003 o caso de corrupção no Banestado, fica bem maior que o tempo disponibilizado para explicar de fato no filme como se deu a origem da elaboração do Plano Real.

Personagens importantes para o Real foram eclipsados pelo Franco, caso dos economistas André Lara Resende e Pérsio Arida, que observaram a característica inercial da inflação brasileira, ou seja, boa parte da alta da inflação acontece por conta de expectativa de inflação, que faz com que os agentes do mercado reajustem os seus contratos na expectativa de uma inflação alta e isso acaba gerando um aumento da inflação no futuro. Uma economia que sofre muita influência desses reajustes de contrato com base em expectativa de inflação alta é chamada de indexada, para desindexar a economia brasileira, o Lara Resende e o Arida propuserem a criação de uma segunda moeda, que funcionaria paralela a principal. Pela proposta, que ficou conhecida como “Larida”, a moeda principal sofreria todos os efeitos da inflação enquanto a paralela passaria a ser valorizada e serviria de transição para uma nova que substituiria a moeda vigente. Isso foi posto em prática parcialmente durante o Plano Cruzado, em 1986, mas seu sucesso aconteceu em 1994, com o Cruzeiro Real, unidade monetária vigente da época, absorvendo os efeitos inflacionários, enquanto havia uma valorização da Unidade Real de Valor (URV), moeda que não existia, era  puramente virtual e que só funcionava porque a  população foi convencida de que ela tinha valor. O sucesso da URV permitiu que o Cruzeiro Real deixasse de ser adotado e fosse substituído por uma moeda forte, que é o Real.

Sobre a parte de montagem e encadeamento das cenas do longa, o filme peca por trazer cortes muitos abruptos entre uma cena e outra, além do roteiro não contribuir com diálogos  que facilitem a transição entre as cenas, apresentando muitas falas de personagens cujo raciocínio parece ter sido cortado no meio.

Apesar desses defeitos, no geral o filme é bom. Se não forem depositadas grandes expectivas de que seja um filme sério que explore de maneira profunda a política e economia brasileira e de que tenha personagens com psicológicos complexos, dá para absorver dele uma experiência divertida, visto que ele apresenta temas sérios e que poderiam ter um risco de serem apresentados de forma mais entediante, com um tom leve, ao mesmo tempo que não negligencia, ainda que isso não seja feito de forma suficientemente didática, os principais pontos dos fatos políticos e econômicos que circundam o Plano Real e a trajetória de Gustavo Franco.

Nota: 9/10cena-de-real-o-plano-por-tras-da-historia-1489793206455_v2_1191x752

Animais Noturnos

O longa-metragem Animais Noturnos, dirigido pelo estilista Tom Ford, entrelaça na sua trama três linhas narrativas, a principal  é centrada em Susan (Amy Adams), importante curadora de um museu de arte. Essa linha origina outras duas, a primeira é o enredo do livro “Animais Noturnos”, de Edward (Jack Gylenhaal), ex-marido de Susan que envia para ela o escrito cujo desenrolar acontece conforme a personagem de Adams faz a leitura na trama principal e a segunda são os flashbacks que Susan tem da época em que ela e Edward eram casados.

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O destaque do filme é justamente saber encaixar essas três linhas narrativas, o roteiro e a direção, obras do estilista e cineasta novato Tom Ford, são construídos de forma que não há mudanças abruptas na passagem de uma história para outra, mesmo que as três tenham seus enredos próprios. Como já apontado, a linha principal trata de Susan como uma importante curadora de artes, os flashbacks dela com o personagem de Jake têm uma relação mais direta com o enredo original, mas o livro de Edward possui uma narrativa totalmente diversa, visto que é centrado em um pai de família, também vivido por Jake Gylenhaal, que busca vingança depois de um encontro na estrada com um grupo de criminosos liderados por Ray Marcus (Aaron-Taylor Johnson), cuja consequência foi o assassinato de sua mulher, também interpretada por Amy Adams e filha (Ellie Bamber).

Quanto ao elenco, os protagonistas Jake Gylenhaal e Amy Adams cumpriram seu papel e deram a profundidade necessária para os seus personagens, apesar disso, suas atuações não entregaram nada que já não foi mostrado anteriormente, como em O Abutre (Dan Gilroy) e Homem Duplicado (Dennis Villeneuve) no caso de Jake e Grandes Olhos (Tim Burton) e O Vencedor (David O. Russel) no caso de Adams. Isso não acontece por exemplo com a atuação de Aaron-Taylor Johnson ao interpretar Ray Marcus, personagem assassino do livro “Animais Noturnos”, nesse trabalho ele mostrou que se sai bem em películas mais complexas do que aquela baseada nos quadrinhos do Kick Ass (Matthew Vaughn), no qual ele interpretou o justiceiro protagonista. A atuação de Aaron teve seu valor reconhecido ao ganhar o prêmio de Melhor Ator Coadjuvante no Globo de Ouro, único que Animais Noturnos levou na premiação.

Em linhas gerais, o filme não tem só uma, mas três histórias boas e sua principal qualidade é saber encaixar esses diferentes enredos, além de contar com um elenco competente que soube explorar o psicológico dos personagens.

 

 

 

16 melhores filmes de 2016


1. Animais Noturnos (Tom Ford)

2. Macbeth (Justin Kurzel)


3. Neruda (Pablo Larraín)


4. Spotlight (Tom McCarthy)


5. A Grande Aposta (Adam McKay)


6. Snowden (Oliver Stone)


7. Café Society (Woody Allen)


8. O Quarto de Jack (Lenny Abrahamson)


9. Elis (Hugo Prata)


10. Julieta (Pedro Almodóvar)


11. Zoom (Pedro Morelli)


12. Anomalisa (Duke Jonhson e Charlie Kaufman)


13. Swiss Army Man (Dan Kwan e Daniel Scheinert)


14. A Economia do Amor (Joachim Lafosse)


15. Supersonic (Mat Whitecross)


16. Cinema Novo (Erik Rocha)

Obs 1: A ordem dessa lista não está de acordo com as notas que eu dei no meu facebook porque lá avaliei com base nas minhas impressões imediatas e não dentro do contexto de 2016 como um todo.
Obs 2: Os nomes entre parênteses são dos diretores dos filmes.

Obs 3: Alguns filmes de 2015 estão nessa lista pelo motivo de só terem sido lançados em 2016 no Brasil.

Não Olhe para Trás

Danny Collins Movie

O filme conta também com músicas de John Lenneon na trilha sonora

Inspirado na história real do roqueiro Steve Tilston, o filme Não olhe para trás, dirigido por Dan Fogelman, mostra Al Pacino no papel de Danny Collins, músico idoso que tem uma vida desregrada e entra em um conflito com sua carreira. O elenco também conta com a Jennifer Garner e o Bobby Cannavale, nora e filho de Collins respectivamente. Ele está em cartaz hoje (27), na sessão das 18 horas do cinema UCI do shopping Iguatemi

O longa é uma mistura de humor com drama. Al Pacino, no papel da versão romanceada de Tilston, passa a maior parte de seus dias se envolvendo com mulheres, usando drogas e abusando da bebida. Porém, em um momento da história acontece uma reviravolta e ele se encontra em uma situação de crise de consciência após receber uma carta de John Lennon com décadas de atraso. Dessa forma, ele tenta consertar os estragos cometidos nessa sua vida desregrada, como ir atrás do filho que ele teve com uma fã há muito tempo, mas que nunca conheceu pessoalmente.

O humor do filme consegue dar uma leveza às cenas dramáticas. Fogelman encaixa bem momentos de descontração em situações que exigem uma reflexão mais aprofundada sobre a vida. A trama envolve ao mostrar momentos sérios de uma maneira gostosa de assistir, se distanciando de filmes que, por serem bastante reflexivos, não conseguem prender o espectador.

O Al Pacino é o que mais sabe aproveitar esses momentos de irreverência, mas assim como o seu personagem, ele não tem mais a mesma energia do passado. Sua atuação nesse filme não chega nem perto de outras que o consagraram, como a de Scarface e O poderoso chefão. Ela acontece de uma maneira cansada, parecendo que ele não está à vontade em muitas partes do enredo. Devido a isso, atores coadjuvantes conseguem roubar a cena, como o Bobby Cannavale, que convence no seu papel de filho decepcionado e revoltado contra o pai e a brilhante Jennifer Garner, que cumpre com maestria a função de sua personagem, ser uma conciliadora na relação de seu marido com o pai problemático.

O final é construído de maneira ambígua, deixando o desfecho aberto para que o espectador interprete da maneira que quiser. Isso é uma das qualidades da obra, pois permite que o público complete a narrativa do enredo, tornando a experiência de assisti-lo algo diferente para cada tipo de pessoa.

A trilha sonora é muito bem trabalhada pelo Fogelman no enredo, sendo sempre preparado um contexto adequado para cada momento em que as músicas são tocadas. Isso faz com que sua obra se diferencie de outros filmes musicais, cuja as canções entram na história de uma maneira totalmente brusca e sem estabelecer uma relação clara com o que está acontecendo no enredo.

Em linhas gerais, a direção é feita de uma maneira boa, fazendo com que drama e comédia sejam dosados de modo que envolve quem o assiste, além de também fazer com que a trilha sonora seja um diferencial entre os filmes de gênero musical . Outro ponto positivo é seu elenco, que conta com veteranos do cinema e bons atores que estão com sua carreira em ascensão.

Birdman ( ou a inesperada virtude da ignorância)

O filme fala de um ator que ficou estigmatizado por fazer um blockbuster de super herói, o Birdman, e que tenta voltar sua carreira para algo mais cultural, fazendo uma peça de teatro, porém as pessoas só o veem como protagonista de Birdman.

A trama meio que lembra a carreira de Michael Keaton, que ficou conhecido por fazer uma das versões de Batman.

O longa consegue fazer ao mesmo tempo uma auto crítica e uma auto promoção de hollywood e traz também uma inovação por ser filmado sem cortes, ou pelo menos dá a impressão de ter sido filmado assim.

Quanto ao final, ele é ambíguo e dá margem para o espectador interpretar da maneira que ele quiser. Logo no começo do filme, quando os atores estão reunidos na mesa para memorizar as falas, há uma dica do que acontece no final do história.

Todos os atores principais já participaram de um filme de super herói, Keaton como Batman, Edward Norton como Hulk e Emma Stone, como Gwen Stacy no Espetacular Homem Aranha.

Birdman foi bastante premiado, inclusive conquistando o Oscar de melhor filme e diretor, talvez pela metalinguagem hollywoodiana bastante presente no filme.

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Uma Longa Queda

O filme fala sobre quatro pessoas que se conhecem após tentarem suicídio no terraço de um puma-longa-queda_t65620_jpg_290x478_upscale_q90rédio em Londres, são elas, um apresentador que teve sua vida arruinada por um escândalo,  uma adolescente que deseja ser reconhecida, uma mãe que enfrenta dificuldades em cuidar de um filho deficiente e um jovem meio tímido, interpretado por Aaron Paul, o Jesse Pinkman de Breaking Bad.

O longa explora bem o poder que a imprensa tem de ora colocar uma pessoa no topo, ora destruir para sempre sua reputação. Na história os jornalistas são mostrados como pessoas que exploram o sofrimento para vender notícias, algo que, apesar de recorrente, não pode ser generalizado.

A trama é bem reflexiva, apesar de ter um toque de humor, algo que deixa o filme um pouco mais leve. A trilha sonora é excelente e através dela, conheci uma música nova muito boa, Youth da Daughter.

Nota: 9,8/10