A Onda

O filme alemão “A Onda”, tradução do título original “Die Welle”, mostra a realizição de um experimento de um professor de autocracia chamado Rainer Wenger (Jüngen Vogel). No começo do filme vemos uma cena em que Wenger discute com o diretor, pois ele quer o cargo de professor de anarquismo, porém acaba ficando com de autocracia.

Seus alunos começam a duvidar de que pudesse existir novamente um regime como o nazismo e com o objetivo de provar o contrário ele propõe um experimento com essa classe. Eles estão passam a fazer parte de um mesmo grupo e esse grupo tem que seguir algumas regras, como alunos com notas ruins sentarem do lado de alunos com notas boas e que todas as respostas que fossem dadas terem que ser curtas e objetivas.

Para reforçar esse sentimento de grupo, toda a classe passa a se vestir da mesma maneira, com calças jeans e camisas brancas e após uma eleição com várias sugestões o grupo foi batizado com o nome de a Onda. Eles também tem que chamar o professor de Herr Wenger, que significa senhor Wenger em alemão. Nem toda classe concorda com essa ideia e uma menina chamada Karo (Jennifer Ulrich) passa a ser contra a Onda e principalmente pelo fato de eles eliminarem a individualidade das pessoas ao impor vestimentas iguais. Ela então sai dessa turma e passa a integrar a turma de anarquismo.

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Para ressaltar ainda mais essa ideia de grupo eles passam a ter um símbolo próprio, que é o desenho de uma onda e também fazem seu próprio cumprimento, que é o gesto com a mão imitando o movimento de uma onda. Para espalhar a mensagem do grupo eles passam a pichar o símbolo deles por vários muros das ruas da cidade, chegando até ao extremo de pichar esse símbolo no alto do prédio da prefeitura. Há também festas onde só os membros do grupo podem participar.

Algumas pessoas passam a desenvolver uma relação mais forte com a Onda do que outras, uma delas é Tim (Frederick Lau), que antes de fazer parte desse grupo ele era muito solitário e tímido, com o grupo ele passa a ter uma maior importância e a se relacionar com os outros.

Muitas pessoas passam a ver a Onda como um grupo estranho, algumas dessas pessoas, os anarquistas passam a chamá-los de nazistas e tentam agredir Tim, porém ele é defendido por Bomber (Maximilian Vollmar), que antes de entrar no grupo era um típico valentão.

Em várias partes do filme vemos conflitos entre Karo e seu namorado Marco (Max Riemelt), que faz parte da Onda. Nessas discussões Karo tenta convencer seu namorado de todas as formas a sair desse grupo, porém ele se mantém impassível e não sai de nenhuma forma.

Tim passa a querer demonstrar importância e ser digno de confiança de qualquer modo e por isso se oferece para ser guarda-costas de Wenger, porém ele fala que não é necessário e manda Tim voltar para sua casa, ele não volta para casa e dorme do lado de fora da casa de Wenger. O professor tem uma discussão com sua esposa, que alega que o grupo está indo longe demais, porém ele afirma que isso é apenas inveja, pois ele está fazendo mais sucesso que ela.

Durante um jogo de polo aquático, os membros da Onda passam a arranjar uma briga com o time rival da escola deles, por conta disso o jogo acaba sendo cancelado. Essas e outras atitudes mostram o quão longe esse grupo estava indo e que era preciso que ele parasse de existir de alguma forma.

Na cena final o professor Wenger reúne todos os membros da Onda no auditório e passa a fazer um discurso falando o quanto a Onda mudaria os rumos da Alemanha. Marco, então discorda do professor e protesta, por conta disso Rainer o acusa de traição e ordena que os membros restantes do grupo o tragam para o palco para que ele receba uma punição. Porém isso não acontece e o professor revela que fez isso para mostrar que rumos eles estavam tomando e que as decisões da Onda estavam se tornando bastante extremadas, com isso ele declara o fim da Onda.

Nesse momento chegamos ao clímax do filme, que é quando Tim a passa subir no palco com uma arma. Para acalmar todos Bomber fala que a arma na verdade tinha balas de festim, porém Tim reage e atira nele, logo em seguida ele se mata. O filme acaba com Rainer Wenger sendo preso e levado pela viatura da polícia até a cadeia.

Ao analisar esse filme podemos utilizar alguns conceitos da psicologia, um deles é o de grupo social. Vemos que a Onda é um grupo de pessoas unidas por um mesmo ideal e com várias particularidades em comum, segundo o conceito de grupo social, ele acontece quando vários indivíduos se reúnem por algo que os une, nesse caso é a ideologia do grupo.

Também podemos atentar ao fato de que quando um indivíduo está em grupo ele passa a ser capaz de fazer coisas que anteriormente ele não era capaz, vemos isso claramente exemplificado em Tim, que anteriormente ele sozinho e incapaz de grandes feitos e quando entrou para a Onda, ele passa a se integrar com várias pessoas e agir em nome de um ideal. Isso ocorre porque quando uma pessoa está reunida em um grupo a sensação de impossível desaparece e ela se julga capaz de realizar qualquer atividade, por isso vemos os membros da Onda pichando vários muros e até subindo o prédio da prefeitura para pichar o símbolo do grupo.

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Ainda usando o conceito de grupo social vemos que os valores éticos são mais presentes em um indivíduo isolado do que em um grupo, por isso os membros da Onda são capazes de cometer vários delitos e arranjarem várias brigas, algo que nunca aconteceria se cada membro do grupo estivesse sozinho, pois os valores ético agiriam de uma forma bem mais potente nele se ele não estivesse fazendo parte de nenhum grupo.

Algo que também podemos observar é que todas as ações que são feitas pela Onda visa principalmente o bom funcionamento do grupo e sua não dissolvimento. Isso é explicado pelo conceito de pânico, que é justamente o medo de que o grupo seja desfeito e por isso os seus integrantes ficam totalmente aterrorizados e tentam de qualquer forma evitar que ele seja extinto.

Outra característica do grupo social é que ele tem um líder, que no caso do filme é o próprio professor Rainer Wenger, que teve a ideia de criar a Onda e dita todas as suas regras. O líder tem a função de deixar o grupo mais unido e coeso, sendo aquilo o qual todos devem se unir ao seu redor trazendo uma ideia mais profunda de unidade ao grupo. No grupo todos são iguais, com a exceção do líder, que possui mais privilégios, isso pode ser claramente observado na Onda, em que todos tem que tratar o professor de forma respeitosa, o chamando de Herr Wenger, enquanto que entre si não há necessidade desse tipo de tratamento.

Vemos que o surgimento e a causa do funcionamento da Onda se deve ao fato de um contágio, que cada pessoa exerce sobre outra, ou seja ele passa a existir porque algumas pessoas concordaram com a ideia e isso passou a encorajar outras e seu funcionamento se deve pelo fato de que cada maneira de pensar é influenciada por outra pessoa do grupo, pois cada um vai contagiando os outros com aquilo que é o comportamento geral da Onda. Porém isso não impede de que algumas pessoas não sejam contagiadas por esses ideais e passem a serem contra eles, como por exemplo a Mona.

Algo que explica o fato dos pertencentes a Onda cometerem vários atos de violência de depredação de patrimônio público, é o motivo que o indivíduo quando faz parte de um grupo social ele passa a se tornar inconsciente dos seus atos, semelhante de como ele estaria se estivesse em um estado de hipnose. Por isso ele acaba não percebendo que ele está passando dos limites quando realiza essas ações destruidoras coletivamente, o que explica claramente como eles conseguiram fazer vários pichamentos sem o mínimo de hesitação e nem de remorso, o que explica também a briga que eles arranjaram no jogo de polo aquático, pois ao não terem plena consciência dos seus atos, eles passaram a não medir as consequências que esse ato traria. Por isso Mona tenta os impedir de prosseguir com isso, pois elas percebe que eles já não são mais os mesmos de antes de entrarem nesse grupo.

Outro conceito que podemos utilizar ao analisar esse filme é o de menoridade, maioridade e esclarecimento. Segundo o filósofo iluminista Kant, o conceito de menoridade é explicado quando alguém não consegue pensar por conta própria, sendo necessário que ele se apoie em outra pessoa, ou na ideologia de outra pessoa, dessa forma ele não consegue fazer nada por conta própria, ficando sempre dependente do outro. Maioridade seria justamente o contrário, ou seja quando o indivíduo raciocina por conta própria e se torna independente de outras pessoas. O esclarecimento é o processo pelo qual o indivíduo passa de uma menoridade para uma maioridade, ou seja ele deixa de ser dependente de outras pessoas e passa a raciocinar por si mesmo.

Isso é exemplificado no filme através de Tim, que é extremamente dependente do grupo e por isso pauta suas ações exclusivamente para que ele continue funcionando. Tim é claramente menor e precisa muito das ideias do grupo, não raciocinando por conta própria e ficando bastante dependente da ideologia e dos atos que a Onda pratica. Por esse motivo quando o grupo acaba tendo um fim, ele passa a não ver mais motivos para viver, pois já existem mais nada em que apoiar, porque aquilo a que ele era extremamente dependente no modo de pensar e agir teve um fim e por conta disso a sua vida deveria ter um fim.

Não apenas Tim pode ser considerado um exemplo de menoridade, mas os outros membros do grupo também, apesar de ser em um gral bem menor, pois eles acabam abrindo mão de sua individualidade do modo de pensar particular deles para aderir as ideias do grupo e com isso eles também criam uma dependência com a Onda, apesar de, como já foi dito, ser em gral bastante menor do que Tim.

Como exemplo de maioridade podemos citar a Mona, que recusa veementemente a participar da Onda e com isso ela mantém sua individualidade e seu modo de pensar e ser. Ela prefere pensar pro conta própria do que ser controlada pelo professor Wenger e participar da Onda. Com isso ela está em clara vantagem as pessoas que não tomaram a mesma decisão que ela, pois ela pode pensar por conta própria e não toma atitudes destrutivas que trazem graves consequências. Por perceber a menoridade em que todos estavam se metendo, ela tenta alertá-los, principalmente seu namorado Marco, porém ninguém a dá ouvidos e continuam se tornarem dependentes.

O processo de esclarecimento é visto quando Marco passa a protestar contra a Onda no auditório, pois pela primeira vez desde que entrou no grupo, ele passa a pensa autonomamente e tomar uma decisão sozinho, que é justamente ser contra toda aquela loucura que era aquele grupo autoritário, com isso podemos ver um processo que Marco finalmente dá ouvidos a sua namorada e passa de um estado de menoridade, em que ele era dependente do modo de pensar da Onda, para um estado de maioridade, em que ele passa a tomar decisões sozinho e a pensar por conta própria.

Ficha Técnia

  • A Onda
  • Die Welle
  • Alemanha, 2008
  • Diretor: Dennis Gansel
  • Roteiro: Dennis Gansel, Peter Thorwarth
  • Elenco: Christiane Paul, Cristina do Rego, Frederick Lau, Jacob Matschenz, Jennifer Ulrich, Jürgen Vogel, Max Riemelt
  • 107 minutos
  • 16 anos
  • Moviemobz

Nota: 8/10

Anti-Herói Americano

O filme conta a história da vida de  Harvey Pekar (Paul Giamatti), um arquivista mal sucedido que acaba se tornando um escritor de história em quadrinhos. A trama começa nos apresentando uma cena de sua infância, que se passa no Dia das Bruxas, nessa cena estão eles e outras crianças pedindo doces para uma mulher da vizinhança, entre todas as crianças o Harvey é o único que não está fantasiado de super-herói, na verdade ele não usa nenhuma fantasia. Ao ser indagado sobre qual super-herói ele era, ele responde que é apenas um garoto do bairro, mostrando logo no início do filme que ele é uma pessoa simples e que não possui nada de extraordinário.

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No decorrer do filme há uma intercalação entre cenas em que a história se desenvolve e cenas em que o verdadeiro Harvey Pekar está em um estúdio, ora narrando o filme, ora conversando com os outras pessoas reais que inspiraram os personagens do filme.

Em uma das cenas iniciais nos é mostrado que a segunda esposa de Pekar o abandona, ele então começa a ficar muito triste e vê que sua vida não tem sentido, esse sentimento é reforçado em dois momentos da trama, um é quando Harvey encontra o obituário de um arquivista que morreu sendo arquivista, nessa cena ele percebe que não quer passar o resto da vida dessa forma, a outra cena é uma em que ele encontra uma mulher que foi sua colega de faculdade e mesmo ela não levado nenhuma vida extraordinária, ele começa a sentir inveja dela.

Um dos passatempos de Harvey é colecionar discos de Jazz, ao ir comprar discos para sua coleção em uma feira de produtos usados ele encontra Robert Crumb (James Urbaniak), um autor de história em quadrinhos, eles então passam a desenvolver uma amizade. Com o passar do tempo Pekar percebe que Robert tem uma vida boa e é reconhecido pelo seu trabalho, por conta disso ele começa a fazer suas próprias histórias em quadrinhos. Essas histórias são todas baseadas em situações da vida dele, ele então mostra para Crumb um esboço dela e ele resolve ilustrar sua história e publicá-la.

Harvey  consegue com essas histórias um reconhecimento e passa adquirir pessoas que o admiram, uma dessas pessoas é Joyce (Hope Davis), que é dona de loja de história em quadrinhos em uma cidade diferente da dele e resolve escrever para Pekar pedindo uma edição de sua história, pois seu sócio vendeu o exemplar mais novo do quadrinho e ela não tinha lido ainda. Eles passam a trocar cartas e em  um momento ele pede para ela o visitar na sua cidade, ela aceita seu pedido e depois de passarem o dia juntos eles se beijam, porém ela começa a sentir mal e vomita no banheiro dele. Depois disso ela fala que eles deviam pular o namoro e ir logo se casar.

Eles se casam e Harvey finalmente deixa de ficar sozinho, porém a relação deles é marcada por muitas brigas e discussões. O tempo passa e ele recebe uma ligação do programa do David Letteman pedindo para que ele conceda uma entrevista, ele concorda pensando que isso poderia aumentar as vendas de seus quadrinhos. No programa Harvey dá respostas que fazem o público rir bastante e logo ele é chamado mais vezes para dar entrevistas, porém ele percebe que isso não ajudou nas vendas de suas histórias e chega um momento que ele está tão chateado que ele acaba fazendo uma confusão no programa e ele para de ser chamado para ir para lá.

Com o passar da história ele descobre que tem câncer e por conta disso ele fica bastante abalado. Sua mulher então tem uma ideia de escrever uma história sobre o câncer dele, ele no início se recusa, porém ela não desiste e chama um homem para ajudá-la, esse homem então a visita com sua filha. Harvey chega e se depara com ele e vê a história que Joyce produziu, corrige alguns erros dela e passa então a concordar com a ideia.

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O homem que visitou eles é divorciado e como Joyce queria muito ter uma filha e as duas desenvolveram uma ligação muito forte, ele resolver dar para ela a criança e Joyce passa a criá-la como se fosse sua filha biológica.

A história sobre o câncer de Harvey produzida por ele e sua esposa faz bastante sucesso e depois de um tempo ele recebe a notícia de que foi curado do câncer.

No final do filme ele percebe que mesmo que ele não tivesse conseguido tudo que queria, ele conquistou uma vida bastante boa e a história de sua vida foi contada nas histórias em quadrinhos e em um filme.

Ficha Técnica

  • Anti-Herói Americano
  • American Splendor
  • EUA, 2003
  • Diretor:  Robert Pulcini, Shari Springer Berman
  • Roteiro: Robert Pulcini, Shari Springer Berman
  • Elenco: Cameron Carter, Chris Ambrose, Daniel Tay, Harvey Pekar, Hope Davis, Joey Krajcar, Josh Hutcherson, Paul Giamatti

  • 73 minutos
  • Livre
  •  Warner Home Video

Nota: 7/10