No

O objeto escolhido para essa análise é o filme chileno “No”, estrelado por Gael Garcia Bernal e dirigido por Pablo Larrain. O filme conta os acontecimentos decorrentes da decisão do ditador Augusto Pinochet de permitir a realização de um plebiscito para que a população decida se ele deve ou não continuar no comando do Chile. Nesse contexto vemos René (Gael Garcia Bernal), um publicitário que se identifica com os ideais da esquerda, que decide comandar uma campanha publicitária com o objetivo de convencer a população chilena de que eles devem votar “não” no plebiscito sobre a permanência de Pinochet no governo, daí o nome do filme ser “No”.

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Todo o enredo do filme é centrado no esforço de René para criar uma campanha boa o suficiente para convencer a maioria da população chilena. O tempo que ele dispõe na propaganda é de quinze minutos e nesse tempo para atingir esse tão sonhado objetivo ele utiliza recursos como jingles e o uso de celebridades nas propagandas.

Não só o contexto político é analisado nesse filme, mas também outros temas como a dissolvimento do núcleo familiar, que é representado por René, que é divorciado de sua mulher e vive na sua casa sozinho, porém tendo direito de visitar seu filho e também o consumismo através de várias referências da campanha “No” a outras propagandas que visam o consumo de alguns produtos, como em uma em que é clara a influência dos comerciais da coca cola.

No decorrer do filme ocorrem vários conflitos entre René e o diretor da campanha, alguns deles estão justamente no comercial que é influenciado pela coca cola e na escolha de um arco-íris para o logotipo da campanha.

A ditadura de Pinochet, como muitas outras ditaduras, é marcada essencialmente por uso de violência extrema, censura e perseguição aos opositores do regime, por isso aqueles que estão na campanha “No” se veem em uma situação muito difícil, pois estão indo contra um governo que pode lançar mão de qualquer estratégia para impedir aqueles que vão contra seus objetivos.

Apesar de todas as dificuldades enfrentadas por eles, no final é campanha consegue atingir seu maior objetivo e o “não” ganha na no plebiscito e com isso a ditadura repressiva de Augusto Pinochet finalmente chega ao seu fim.

Esse tema foi escolhido para a análise porque através dele podemos discutir duas teorias da comunicação, a teoria hipodérmica, que é muito usado em propagandas, o tema central desse filme e a teria crítica, que prega a utilização da mídia por uma classe dominante com o objetivo de aliená-la, essas duas teorias serão explicadas nos parágrafos seguintes.

A teoria hipodérmica, também chamada de bullet theory, por conta da sua função de atingir um alvo, é baseada no par de estímulo resposta, da psicologia behavorista, que consiste em lançar estímulos ao publico com a finalidade de obter uma resposta deles. Ou seja, essa teoria é usada para descrever aqueles meios de comunicação em que tem como função manipular de certa forma o público, por isso é muito usada em propagandas, pois a finalidade delas é exatamente manipular um grupo para que eles consumam o que é anunciado nelas.

Um conceito que é usado nessa teoria é o de sociedade de massa, que significa indivíduos atomizados e que estão isolados entre si, mas que recebem os mesmos estímulos oriundos dos meios de comunicação de massa. Esses indivíduos não precisam pertencer a mesma cultura para serem classificados no mesmo grupo, sendo apenas necessário que eles estejam sendo influenciados pelos mesmos produtos midiáticos.

A outra teoria que pode ser utilizada na análise do filme “No” é a Teoria de Frankfurt, também chamada de teoria crítica. Essa teoria trabalha com o conceito de indústria cultural, no lugar de cultura de massa, pois segundo seus estudiosos os produtos culturais não são feitos pela massa e nem com o objetivo de atender seus interesses e facilitar seu bem-estar. O conceito de indústria cultural se refere aos meios de comunicação que tem como finalidade alienar as massas, não sendo importante para eles desenvolver no publico um senso crítico ou os levar a refletir e pensar em assuntos importantes para a sociedade.

Essa teoria também trabalha com alguns outros conceitos, como estandardização, que se refere aos padrões da indústria cultural que sempre vão se repetindo, impedindo a criação de algo original. Nos filmes da indústria cultural os desfechos são bastante previsíveis, o que faz com que o público sempre esteja em um campo seguro para ele, em que ele sempre lida com o esperado. Para os autores dessa teoria, os momentos em que eram para serem considerados lazer, onde as preocupações da vida cotidiana deveriam ser esquecidas, são considerados uma extensão dos momentos de trabalho, pois o público é educado nesses momentos a reproduzir uma ideologia dominante e a não contestar de nenhuma forma essa ideologia.

Algo que opõe fortemente a Teoria de Frankfurt é a pesquisa administrativa, pois diferentemente dela ela não vê os meios de comunicação de massa como algo alienante, que serve para reproduzir uma ideologia dominante, mas sim como algo que busca atender determinados objetivos, como fazer com que a população evolua intelectualmente, fazer com que as pessoas entendam algumas políticas governamentais ou até para vender mercadorias.

Para que se possa entender melhor o filme “No” é preciso explicar o contexto histórico do Chile naquela época. Os membros da Junta do Governo realizaram um golpe de estado e tiraram do poder o presidente Salvador Allende, quem o substituiu na presidência foi o comandante-geral das forças militares Augusto Pinochet.

Durante a ditadura de Pinochet, muitos militantes da esquerda que eram contra o seu governo, foram perseguidos e torturados de forma brutal, além disso ele utilizava da censura para impdir que a imprensa veiculasse algo que poderia ser contra seus ideais.

Antes do plebiscito retratado no filme, foi realizado outro, em que a venceu a opção “sim”, essa votação é considerado por muitas pessoas uma fraude, porém ele teve validação e Pinochet permaneceu no poder.

A economia durante o governo Pinochet era bastante influenciada pelo liberalismo. No começo da implatação dessas medidas liberais, a economia se retraiu, porém esse estágio de retração já era previsto pelos próprios estudiosos desse sistema econômico e algum tempo depois o Chile sofreu um grande crescimento de sua economia, o que foi chamado por muitos de Milagre Econômico Chileno. A ecomia chilena sofre outro agrave, porém ainda sim consegue se recuperar, sendo essa recuperação chamada de segundo Milagre Econômico.

Dentre as manifestações contra o governo de Pinochet, existem tanto as pacificas, como as violentas. Mesmo com as manifestações pacíficas foram reprimidas brutalmente pela ditadura. Um exemplo de uma manifestação violenta foi a tentativa de assassinato do Pinochet por comandos da Frente Patriótica Manuel Rodríguez – FPMR.

A ditadura de Picochet chega ao fim com o segundo plebiscito que decidiu de ele continuava ou não no poder, esse foi o plebiscito que foi retratado no filme e sua decisão foi bastante influenciada pela campanha “No”, que dá título ao filme analisado.

O filme “No” pode ser analisado utilizando-se a teoria hipodérmica porque essa teoria diz respeito principalmente propagandas, que o principal assunto tratado no filme, podemos utilizar o conceito de estímulo resposta, pois na campanha são realizados vários tipos de estímulos, como a denúncia da grande violência utilizada por Pinochet, o uso de celebridades para conquistar um maior público e o uso de jingles que acabam ficando na memória de quem o assiste; com o objetivo de atingir uma resposta do público, que é fazer com que eles votem “não” no plebiscito. Desse forma vemos uma das principais características da teoria hipodérmica, que é a manipulação, pois o publicitário René tenta a todo custo manipular a maioria da população chilena para que tirem o ditador do poder.

O conceito de sociedade de massa pode ser usado para compreender melhor o filme pelo fato de que a população chilena que vota no plebiscito e que assiste as propagandas do “No” são pessoas individualizadas, atomizadas e isoladas entre si, ou seja, apesar de estarem recebendo os mesmos estímulos elas não se conhecem e além disso possuem experiências e culturas totalmente diferentes, porém mesmo assim a maioria é levada a mesma resposta que é votar “não” no plebiscito, pois manipuladas pelo mesmo meio de comunicação.

Esse filme contraria os preceitos da teoria crítica, pois diferentemente de como pregavam seus principais autores, esse não era um produto da indústria cultural que servia para alienar a população e fazer com o hábito de pensar não seja estimulado, pois o filme tem uma função de conscientizar quem o assiste, denunciando como era cruel a ditadura no Chile e levando o público a refletir sobre questões importantes, como a luta por uma sociedade melhor e necessidade de se libertar de sistemas autoritários, ou seja o hábito de pensar é altamente estimulado por esse filme.

Outro conceito da teoria crítica que esse filme contraria é estandardização, pois ele não utiliza a repetição de padrões que sempre são utilizados pelos filmes ditos da indústria cultural, pois o filme segue ideias originais com uma trama envolvente sem o uso de clichês. Não há uma clara divisão entre bem e mal, pois mesmo entre aqueles que combatem o governo ditatorial existem grandes divergências. O final do filme não é algo previsível, diferentemente do que é dito pela teoria crítica, pois durante seu desenrolar podemos ver momentos em que pensamos que a campanha fracassará.

Esse filme não pode ser considerado como uma extensão do trabalho, pois ele não reforça os ideais de uma ideologia e o público pode realmente usufruir do seu tempo livre sem se submeter aos mecanismos produtivos.

No filme “No” quem o assiste não é manipulado, contrariando outro princípio da teoria de Frankfurt, ou seja ele não é levado a seguir uma ideologia dominante, tendo um papel totalmente passivo, mas sim a questionar algumas formas de poder e mostrar que as pessoas possuem o poder de derrubar esse governo, caso elas se juntem e pensem em estratégias inteligentes para conquistar cada vez mais um público favorável a eles.

Diferente de tudo aquilo que diz o conceito de indústria cultural, esse filme faz com que o publico tenha reflexões de cunho político, mostrando de uma forma bastante informativa um acontecimento histórico que levou a derrocada da ditadura chilena.

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Os produtos da indústria cultural são fáceis de entender, não sendo utilizado neles nada que dificulte a compreensão de quem o consome ou o faça raciocinar um pouco mais para entendê-los, aliás ao consumir os produtos da indústria cultural quase não é utilizado o raciocínio, o que difere muito do que acontece em “No”, pois não é algo simples de entender, pois necessita de conhecimento prévio de alguns acontecimentos da história do Chile e além disso estimula o raciocínio de seu público ao fazê-lo questionar algumas formas de poder e mostrando como um grupo de pessoas trabalhou arduamente para que esse poder fosse derrubado.

Esse filme consegue se encaixa perfeitamente na pesquisa administrativa, que é uma teoria que vai totalmente contra o que é pregado na Teoria de Frankfurt, sendo oposta a ela em muitos aspectos, porém ela guarda algumas semelhanças com a teoria hipodérmica, pois ele acaba por cumprir alguns objetivos que segundo a pesquisa administrativa os meios de comunicação tinham, como por exemplo a aumentar a intelectualidade da população, pois faz com que ela esteja ciente de um acontecimento histórico bastante importante para a volta da democracia no Chile; fazer com que a população compreenda algumas das políticas governamentais, pois o filme mostra como funcionava o governo de Pinochet e como ele era cruel com quem era contra seus ideais.

Dessa forma, ao mesmo tempo que nega a função alienante e ideológica da teoria crítica, esse filme reforça ideias da teoria hipodérmica, pois utiliza trata-se principalmente de uma campanha publicitária, que utiliza certos estímulos para obter repostas pré determinadas, assim como defende a psicologia behavorista, ou seja essa campanha tem como finalidade manipular a maioria da população chilena para que haja a saída do poder de Pinochet. Além disso também se encaixa na pesquisa administrativa, pois serve para reforçar a inteligência da população e fazer com que ela compreenda algumas políticas governamentais.

Ficha Técnica

  • No
  • No
  • Chile, 2012
  • Diretor: Pablo Larrain
  • Roteiro: Pedro Peirano
  • Elenco: Alfredo Castro, Antonia Zegers, Diego Muñoz, Gael García Bernal, Jaime Vadell, Luis Gnecco, Manuela Oyarzún, Marcial Tagle, Néstor Cantillana
  • 110 minutos
  • 14 anos
  • IMOVISION

Nota: 9/10

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