O Labirinto do Fauno

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Relacionarei nesse texto o mundo dos sonhos criado pelo filme “Labirinto do Fauno” com o conceita da filosofia clássica de “natureza dos sonhos”, como também falarei de outros elementos importantes da película.

Nesse filme, Ofélia, a personagem principal, faz uma espécie de Odisséia na qual o principal objetivo é entrar totalmente no mundo paralelo a realidade que é proposto no longa. Nessa jornada ela conta com um auxílio de um ser mitológico que representa o mundo natural, tanto que ele se apresenta dessa forma: “Eu fui chamada de tantos nomes que apenas o vento e as árvores podem pronunciar. Eu sou a montanha, a floresta, a terra… Eu sou um fauno “.

O mundo dos sonhos apresentado na história, pode ser encarado como algo que estabelece uma grande relação com a realidade, como exposto artigo de Bento Prado Jr, “A imaginação: Fenomenologia e Filosofia Analítica”. A construção dos sonhos só é possível a partir de elementos do real, sendo nossos delírios, uma espécie de interpretação diferente do universo em que vivemos.

É possível observar que esse mundo real e imaginário estão muito interligados, algo que explicita bem essa ligação é a mandrágora que o Fauno dá para a Ofélia, que é um objeto vindo do mundo irreal e que ao mesmo tempo é reconhecido por pessoas do mundo ordinário. O caderno que a heroína usa também viabiliza essa ligação, pois como um elemento perceptível para as pessoas do mundo real, ele tem seu quê de fantástico quando começa a formar uma imagem sangrenta de um útero no momento em que sua mãe sofre as consequências de uma gestação mal planejada. Outro objeto que faz essa ligação é o giz de cera, que aparentemente parece algo comum, porém ele usado para abrir portais para o mundo de fantasia criado no filme.

Há também uma forte relação dessa obra do cinema com a literatura, pois o longa apresenta diversos elementos do conto de fadas, como a presença de um herói, um vilão, uma jornada e um mundo fantástico. Essa relação é inclusive explicitada no filme, pois em vários momentos vemos Ofélia lendo um livro de conto de fadas.

A história tem uma proposta de dividir as pessoas entre aquelas que são capazes de perceber um mundo além do nosso, das que não são capazes. O principal símbolo usado para representar essa percepção é o olho. Isso é claramente percebido quando a protagonista tem que colocar um olho em uma estátua como parte da jornada proposta pelo Fauno. Os outros personagens também parecem ter pouca ou até mesmo nenhuma ligação com esse mundo, chegando ao ponto de que a mãe de Ofélia a aconselhe a parar de fantasiar tanto, quando isso acontece ela confessa que também sonhava com contos de fada, mas com o passar do tempo foi deixando isso de lado e passou a aceitar a realidade em que vive.

Um momento do filme em que percebemos nitidamente a divisão proposta é em uma das cenas finais, na qual o vilão da trama, Capitão Vidal, chega no momento em que Ofélia fala com o Fauno sobre a última etapa da jornada e vê apenas ela falando sozinha.

A história do longa é marcada pela presença de conflitos de tropas, comandadas pelo capitão Vidal, com rebeldes republicanos no contexto do governo fascista de Franco na Espanha. Esse acontecimento serve para aproximar a trama do filme para a realidade ao estabelecer uma relação direta com importantes acontecimentos históricos. Isso também nos mostra como a realidade pode ser cruel e desoladora, o que faz com Ofélia use a sua imaginação para criar seu próprio mundo de fantasia, onde as pessoas más não estão no poder, mas sim pessoas puras de coração, como a própria Ofélia, apesar disso esse mundo também tem um toque bastante sombrio, sendo o lar de muitas criaturas grotescas e monstruosas, como o próprio fauno e o guardião de um banquete que Ofélia tem que enfrentar como uma de suas tarefas. Não só os habitantes desse mundo tem essas características, como também o ambiente, que é sempre mal iluminado e com elementos pessimistas como florestas livre da presença de pessoas, mas com a presença de animais hostis.

Como tarefa final para se tornar definitivamente uma princesa, a protagonista tem que derramar o sangue de um inocente, o Fauno pede então que ela mate seu irmão mais novo, algo que depois de recusar fazer ela aceita a incumbência, porém ela é interrompida quando o capitão Vidal a mata, resultando no cumprimento de sua jornada, pois sangue inocente foi derramado.

A partir disso o final do filme possui duas interpretações, uma relacionada ao mundo dos sonhos, em que Ofélia rompe totalmente sua ligação com o mundo real e retoma seu posto de princesa no seu mundo fantástico, outra relacionada a realidade concreta em que vivemos, em que a personagem principal morre e se torna um mártir da resistência contra os franquistas na Espanha.

Apesar de o filme não ser nenhuma adaptação de uma obra literária específica, podemos ver nele grandes referências a obras de contos de fada em geral, fato esse que nos permite afirmar que o filme a partir da interpretação do diretor de ideias já existentes, ou seja foi feita uma espécie de análise dialética das histórias infantis, as quais Guilhermo Del Toro nos apresenta de uma forma totalmente diferente das quais nós estávamos acostumados, pois os seres fantásticos retratados não são o retrato da bondade e da pureza como são o das histórias que são contadas para a criança dormir, em vez disso, são seres sombrios, que habitam as trevas e que quando não apresentam um comportamento de antagonismo com Ofélia, tem um comportamento duvidoso, que não nos permite saber facilmente se estão do lado da personagem principal ou não, como é o caso do Fauno.

Esse processo de ter como influências obras existentes para ter como resultado um produto muito diferente do que é proposto por elas, pode ser encontrado em um dos manifestos do movimento modernista brasileiro, que é a antropofagia, na qual o escritor brasileiro “devorava” tudo aquilo que vinha do estrangeiro para “regurgitar” um produto genuinamente brasileiro, algo que acontece no filme, pois foi “devorada” a ideia central dos contos de fada, para ser “regurgitado” a adaptação sombria vista no mundo dos sonhos de Ofélia.

Nota: 8,5/10

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