Carne Doce – Tônus (2018)

O tão aguardado terceiro álbum da banda goiana Carne Doce,  composta pela vocalista e letrista Salma Jô e pelo seu marido, o guitarrista Macloys Aquino, é diferente do trabalho anterior em diversos sentidos.

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O disco Princesa (2016) aposta em ritmos bem mais agitados, com uma presença maior de guitarras, um vocal mais agressivo da frontwoman Salma e letras com pegada mais engajada politicamente. Já em Tônus (2018) é como se a banda resolvesse dar um freio nas letras pesadas e com críticas ao mundo exterior e se voltasse para dentro dela mesma.

Não há como dissociar a temática sentimental/introspectica/erótica predominante no disco da relação entre o casal Salma e Macloys. No entanto, ao mesmo tempo, as letras e melodias são contruídas de uma forma tão intimista que é quase como se a banda estivesse falando no seu ouvido sobre o que você está vivendo. No que falta a Tônus na capacidade de músicas dançantes, ele compensa na facilidade de imersão.

“Amor Distrai (Durín)” difere do resto do álbum por ser bem agitada e mostra um flerte do Carne Doce com ritmos mais pop. A letra dessa música resume bem o tom do disco, ou seja, é a faixa que mais sabe dosar a tríade sentimental/introspectica/erótica, com ênfase nesta última.

O amadurecimento das composições é evidente neste lançamento, mesmo que não tenha apostado em um rock engajado como vinha fazendo, Salma consegue desenvolver muito bem a profundidade dos temas introspectivos tratados em Tônus. Destaque para a faixa título, cujo refrão “É assim, é a vida/Gratidão pela infinitude que me trouxe até aqui/Bom saber que vai-se o viço/Eu conheço a finitude sim” , é umas das maiores qualidade do álbum.

“Nova Nova” e “Comida Amarga” também são outros exemplos de composições bonitas e que fazem o ouvinte sentir algo. Não há como falar exatamente qual sentimento, mas algum impacto definitivamente as letras de Salma deixam em quem as ouve.

Em “Besta” a banda critica o comportamento de algumas bandas do cenário de música independente de reclamar da cultura mainstream, mais popular, e pedir o famoso “apoie a cena”. Em entrevista à vice, Salma resume bem o espírito da música:

“Pedir por favor às pessoas que mudem seu comportamento me parece que não vai fazer nenhuma diferença. É só um grito de desespero, é preguiçoso e inútil. As pessoas já são pouco solidárias com gente que realmente precisa, porque elas seriam com gente que é voluntariamente artista? Me parece um contrassenso com o nosso desafio que é justamente emocionar, comover, atrair de forma genuína e não por favores, por condescendência, por caridade.”

“Não dá pra pedir aos outros que deixem a situação um pouco mais confortável para nós, dá para talvez nos mobilizarmos politicamente, pressionarmos as instituições por um uso e uma distribuição melhor das políticas públicas, cobrar curadorias mais variadas etc. Essa trabalheira e essa responsabilidade toda, que eu entendo, mas que também não estou a fim de fazer.”

Não há neste disco de 2018 uma canção equivalente a “Falo” do álbum Princesa, que traz no arranjo, na letra e no vocal uma pesada crítica ao machismo. Porém, o engajamento político não deixa de existir, a faixa “Golpista” é um resíduo dessa característica anterior da banda, mesmo que a letra seja bem  mais interpretativa, sem as críticas duras e diretas de “Falo”.

Para efeitos de melhor comparação, deixo a seguir trechos das duas canções:

Falo – Princesa (2016)

 Pois aproveitando essa hemorragia
Vou me dar o luxo de ser verborrágica
Com você não basta que eu seja prática
Você não sustenta um raciocínio lógico
E eu já não suporto te explicar o óbvio
Você finge me tratar como igual
Mas seu arroto é pura condescendência
Não, eu não quero me acalmar
Eu não preciso de um tempo
Eu na verdade sei que não adianta esse lamento
Você não vai se apurar
Não importa quanto tempo passe
Meu sexo sempre é um impasse
É a razão pra me acusar
Que é por isso que eu sô histérica
Eu não sô histérica, eu só tô histérica
Que é por isso que eu sou neurótica
Eu não sou neurótica, eu só tô neurótica
Que é modinha eu ser selvática
Meu bem, eu sempre fui selvática
E é bom que você se cuide
Não vai ter quem lhe acude quando eu quiser te capar

Golpista – Tônus (2018)

Flores em fogo
Tédio na brisa
Tudo traz ânsia
Nada sacia
Houve um surto de bege euforia
E por fazer nada estive golpista

Fora de forma
Deito em agosto
Tudo tem gosto de paralisia
Ninguém se cansa de tanta notícia
Mas não precisava ter tanto artista

Carne Doce segue apostando, como faz desde 2014, no seu rock independente e de nicho, mas nesses últimos quatro anos mostrou o quanto evoluiu e o quanto tem capacidade de evoluir ainda mais, seja no amadurecimento das letras e melodias, seja na versaditilidade de temas e abordagens desses temas.

 Ouça:

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