Mapa para as Estrelas

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O filme, que é dirigido por David Cronnenberg, faz uma sátira do culto às celebridades, muito comum na sociedade contemporânea, principalmente agora na era de superexposição da internet. Com Hollywood como pano de fundo e com um humor bastante ácido, ele nos apresenta vários personagens, que de início parecem não estarem ligados, mas com o desenrolar da história descobrimos suas conexões.

O longa se vale de alguns estereótipos de celebridades para construir seus personagens, como Benjie, um ator mirim, mimado e prepotente e Havanna Sengrad, atriz com um passado de sucesso, mas que perdeu seu espaço por ter envelhecido, interpretada pela Julianne Moore. Além deles, há também a Agatha Weiss, personagem que se muda para Los Angeles e que queimaduras misteriosas na pele e Jerome Fontanna, motorista de celebridades, aspirante a ator.

Cronnembeg exagera em alguns pontos ao mostrar como o mundo das celebridades é doentio, mas como a proposta da obra é apresentar um humor sádico, seu valor não diminui por isso.

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O filme tem um elenco  ótimo e já garantiu  o prêmio de melhor atriz de Cannes para a Jualianne Moore, que também conseguiu uma indicação ao Globo de Ouro pelo mesmo trabalho. Mas para mim, quem rouba a cena é a Mia Wasikowska, que faz o papel de Agatha Weiss. Robert Pattinson, que faz o Jerome e Jonh Cussack, que faz o Dr, Stafford, pai de Benjie também estão excelentes.

Nota: 9,6/10

Boyhood

Boyhood, do diretor Richard Linklater, é um filme que acompanha a vida de um garoto chamado Mason (Ellar Coltrane), da sua infância até a juventude. A principal premissa do filme é utilizar os mesmos atores para interpretar os personagens em diferentes épocas de suas vidas, o que fez com que ele demorasse 12 anos para ser finalizado.
O cotidiano do protagonista é parecido com o da maioria das pessoas, não acontecendo no filme nada de extraordinário ou de muito surpreendente, isso pode fazer com que a muitas pessoas desgostem do longa, mas para mim esse é justamente o ponto forte do filme, já que gera um processo de identificação com vários espectadores. Muitos são os momentos do filme os quais eu vejo minha infância na tela, como no lançamento do sexto livro do Harry Potter e quando ele assiste Dragon Ball.
A trilha sonora é excelente, contando com nomes como Kings of Leon, Black Keys, Foo Fighters, Pink Floyd, Beatles, Coldplay, entre muitos outros.
A relação dele com os pais, que são divorciados, é muito bem construída, expondo as dificuldades de sua mãe para encontrar um bom marido e o vida despreocupada que seu pai leva.
Esse filme é, junto com Birdman, um dos nomes fortes para o Oscar do ano que vem. Não a toa, ficou em primeiro lugar em diversas listas de melhores filmes de 2014, como a do The New York Times.
Nota: 9,5/10
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Lista dos vinte melhores filmes de 2014

1. Boyhood

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2. Garota Exemplar

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3. Relatos Selvagens

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4. Alabama Monroe

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5. O Lobo de Wall Street

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6. Ninfomaníaca (Volumes 1 e 2)

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7. Boa Sorte

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8. Interestelar

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9. O Homem Duplicado

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10. Clube de Compras Dallas

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11. Grande Hotel Budapeste

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12. Ela

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13. Trapaça

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14. Praia do Futuro

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15. Inside Llewyn Davis

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16. Nebraska

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17. O Último Amor de Mr. Morgan

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18. Magia ao Luar

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19. O Mercado de Notícias

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20. Sob a Pele

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p.s: considero alguns filmes do final de 2013 como sendo de 2014.

Garota Exemplar

Garota Exemplar, filme de David Fincher, diretor do consagrado Clube da Luta e de outros sucessos, como Rede Social e Millenium – Os homens que não amavam as mulheres, fala sobre o desaparecimento de uma mulher chamada Amy Dunne no seu quinto aniversário de casamento. As suspeitas logo recaem sobre Nick Dune, personagem central da trama.

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É interessante como o longa consegue trazer diferentes abordagens ao longo da história, ora com a narração do ponto de vista de Amy, mostrando como era conflituosa a relação do casal e nos levando a crer que Nick é de fato um assassino, ora com o próprio ponto de vista do acusado, ressaltando a instabilidade mental de Amy e dando soluções alternativas a esse caso. O ponto forte desse recurso é que ele estimula o espectador a analisar entre as possíveis alternativas e tirar suas próprias conclusões sobre o desfecho.

Na obra, a imprensa tem um papel bastante sensacionalista, promovendo uma espetacularização do caso. Isso se torna bastante perceptível quando ela explora o comportamento de Nick diante do desaparecimento da mulher, que diferente do que é esperado de pessoas nessa situação, não há o menor sinal de luto, mas contantes sorrisos, como o que acontece durante a coletiva com os jornalistas.

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Ben Affleck se sai bem no papel de Nick Dunne, dando um ar bastante extrovertido ao personagem. Com isso, ele compensa de certa forma as numerosas críticas a trabalhos anteriores, como Demolidor. E Rosamund Pike faz Amy Dunne de uma forma bem autêntica, nos mostrando de uma maneira brilhante sua instabilidade emocional.

Nota: 9,5/10

O Homem das Multidões

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O Homem das Multidões, dos diretores Cao Guimarães e Marcelo Gomes, filme inspirado em um conto homônimo de Edgar Allan Poe, trata da solidão nos grandes centros urbanos e é centrado na amizade entre Juvenal e Margô, funcionários do Metrô de Belo Horizonte.

Os dois protagonistas da história têm uma vida bastante solitária, porém eles encaram isso de formas diferentes. Juvenal se mistura a grande massa de pessoas de sua cidade, buscando apenas ser um anônimo entre toda essa gente, além disso ele se comporta de uma forma muito caseira, preferindo a tranquilidade de seu lar as agitações dos eventos sociais de sua cidade. Enquanto que Margô disfarça seu isolamento com amizades feitas na internet, representando um novo tipo de solidão, que surge com o advento das novas tecnologias, algo que se opõe ao retraimento mais tradicional de seu amigo.

Ao longo do filme a relação de amizade entre eles se estreita e com isso o vazio de suas vidas se torna mais suportável.

A narrativa do longa acontece de uma forma lenta, com poucos diálogos e poucos acontecimentos que chamem a atenção, algo que pode tornar enfadonha a experiência de assisti-lo, caso o espectador seja uma pessoa pouco paciente.

Nota: 6/10

Jogo de Cena

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O documentário “Jogo de Cena” de Eduardo Coutinho, que foi assassinado pelo filho no ano passado, nos mostra uma série de entrevistas de atrizes e mulheres anônimas, as quais têm a presença constante de tragédias familiares, como perda do filho e relacionamento ruim com os pais.

Coutinho mistura depoimentos reais com encenações de atrizes, tornando muitas vezes difícil distinguir quem é que está contando sua história de vida e quem está apenas representando, algo que é ainda mais dificultado quando a entrevista é feita com uma atriz que não é muito conhecida. Isso contribui de certa forma com o valor do filme, pois nos faz prestar mais atenção no que é dito pelas entrevistadas, a fim de procurarmos algo nas palavras delas que denunciem se estão ou não atuando.

É incrível como o Eduardo Coutinho tem uma grande habilidade de conduzir entrevistas, pois ele consegue arrancar informações bastante interessantes das mulheres. Isso acontece porque ele sabe quais são as perguntas que devem ser feitas para que as pessoas contem boas histórias, apesar das falas dele quase não aparecerem no documentário, conseguimos perceber sua eficiência através das respostas das entrevistadas.

Algo que também merece ser observado é como as atrizes interpretam essas histórias de vida, fazendo com que os depoimentos continuem interessantes e agradáveis de serem assistidos, mesmo quando contados pela segunda vez. O que contribui com isso são os comentários que as celebridades fazem sobre algumas passagens do relato e certas atitudes que as pessoas anônimas tomam.

Além de explorar as tragédias familiares, os relatos nos mostram outras dificuldades enfrentadas por essas mulheres, como o julgamento que a sociedade faz do modo de elas se vestirem. Isso é mostrado quando uma das mulheres, que sempre usa roupas curtas, diz que as pessoas com quem ela convive consideram ela uma mulher promíscua apenas pelas roupas que ela usa. Com isso o documentário faz uma denúncia de o quanto nossa sociedade ainda é machista e de que a mulher ainda é vista como um ser inferior ao homem. No final desse depoimento não conseguimos perceber se a pessoa que fez o relato era uma atriz ou se ela de fato viveu tudo que ela contou, pois ao terminar ela diz “isso foi o que ela disse” e além disso, esse depoimento foi contado apenas uma vez, impossibilitando a comparação desse entrevista com outra a fim de descobrir quem é atriz e quem não é.

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Em linhas gerais, Eduardo Coutinho consegue reunir em um documentário só, diversas histórias que prendem a atenção e que nos fazem refletir sobre as dificuldades enfrentadas ao longo da vida e como devemos lidar com elas.

Nota: 9/10

O Labirinto do Fauno

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Relacionarei nesse texto o mundo dos sonhos criado pelo filme “Labirinto do Fauno” com o conceita da filosofia clássica de “natureza dos sonhos”, como também falarei de outros elementos importantes da película.

Nesse filme, Ofélia, a personagem principal, faz uma espécie de Odisséia na qual o principal objetivo é entrar totalmente no mundo paralelo a realidade que é proposto no longa. Nessa jornada ela conta com um auxílio de um ser mitológico que representa o mundo natural, tanto que ele se apresenta dessa forma: “Eu fui chamada de tantos nomes que apenas o vento e as árvores podem pronunciar. Eu sou a montanha, a floresta, a terra… Eu sou um fauno “.

O mundo dos sonhos apresentado na história, pode ser encarado como algo que estabelece uma grande relação com a realidade, como exposto artigo de Bento Prado Jr, “A imaginação: Fenomenologia e Filosofia Analítica”. A construção dos sonhos só é possível a partir de elementos do real, sendo nossos delírios, uma espécie de interpretação diferente do universo em que vivemos.

É possível observar que esse mundo real e imaginário estão muito interligados, algo que explicita bem essa ligação é a mandrágora que o Fauno dá para a Ofélia, que é um objeto vindo do mundo irreal e que ao mesmo tempo é reconhecido por pessoas do mundo ordinário. O caderno que a heroína usa também viabiliza essa ligação, pois como um elemento perceptível para as pessoas do mundo real, ele tem seu quê de fantástico quando começa a formar uma imagem sangrenta de um útero no momento em que sua mãe sofre as consequências de uma gestação mal planejada. Outro objeto que faz essa ligação é o giz de cera, que aparentemente parece algo comum, porém ele usado para abrir portais para o mundo de fantasia criado no filme.

Há também uma forte relação dessa obra do cinema com a literatura, pois o longa apresenta diversos elementos do conto de fadas, como a presença de um herói, um vilão, uma jornada e um mundo fantástico. Essa relação é inclusive explicitada no filme, pois em vários momentos vemos Ofélia lendo um livro de conto de fadas.

A história tem uma proposta de dividir as pessoas entre aquelas que são capazes de perceber um mundo além do nosso, das que não são capazes. O principal símbolo usado para representar essa percepção é o olho. Isso é claramente percebido quando a protagonista tem que colocar um olho em uma estátua como parte da jornada proposta pelo Fauno. Os outros personagens também parecem ter pouca ou até mesmo nenhuma ligação com esse mundo, chegando ao ponto de que a mãe de Ofélia a aconselhe a parar de fantasiar tanto, quando isso acontece ela confessa que também sonhava com contos de fada, mas com o passar do tempo foi deixando isso de lado e passou a aceitar a realidade em que vive.

Um momento do filme em que percebemos nitidamente a divisão proposta é em uma das cenas finais, na qual o vilão da trama, Capitão Vidal, chega no momento em que Ofélia fala com o Fauno sobre a última etapa da jornada e vê apenas ela falando sozinha.

A história do longa é marcada pela presença de conflitos de tropas, comandadas pelo capitão Vidal, com rebeldes republicanos no contexto do governo fascista de Franco na Espanha. Esse acontecimento serve para aproximar a trama do filme para a realidade ao estabelecer uma relação direta com importantes acontecimentos históricos. Isso também nos mostra como a realidade pode ser cruel e desoladora, o que faz com Ofélia use a sua imaginação para criar seu próprio mundo de fantasia, onde as pessoas más não estão no poder, mas sim pessoas puras de coração, como a própria Ofélia, apesar disso esse mundo também tem um toque bastante sombrio, sendo o lar de muitas criaturas grotescas e monstruosas, como o próprio fauno e o guardião de um banquete que Ofélia tem que enfrentar como uma de suas tarefas. Não só os habitantes desse mundo tem essas características, como também o ambiente, que é sempre mal iluminado e com elementos pessimistas como florestas livre da presença de pessoas, mas com a presença de animais hostis.

Como tarefa final para se tornar definitivamente uma princesa, a protagonista tem que derramar o sangue de um inocente, o Fauno pede então que ela mate seu irmão mais novo, algo que depois de recusar fazer ela aceita a incumbência, porém ela é interrompida quando o capitão Vidal a mata, resultando no cumprimento de sua jornada, pois sangue inocente foi derramado.

A partir disso o final do filme possui duas interpretações, uma relacionada ao mundo dos sonhos, em que Ofélia rompe totalmente sua ligação com o mundo real e retoma seu posto de princesa no seu mundo fantástico, outra relacionada a realidade concreta em que vivemos, em que a personagem principal morre e se torna um mártir da resistência contra os franquistas na Espanha.

Apesar de o filme não ser nenhuma adaptação de uma obra literária específica, podemos ver nele grandes referências a obras de contos de fada em geral, fato esse que nos permite afirmar que o filme a partir da interpretação do diretor de ideias já existentes, ou seja foi feita uma espécie de análise dialética das histórias infantis, as quais Guilhermo Del Toro nos apresenta de uma forma totalmente diferente das quais nós estávamos acostumados, pois os seres fantásticos retratados não são o retrato da bondade e da pureza como são o das histórias que são contadas para a criança dormir, em vez disso, são seres sombrios, que habitam as trevas e que quando não apresentam um comportamento de antagonismo com Ofélia, tem um comportamento duvidoso, que não nos permite saber facilmente se estão do lado da personagem principal ou não, como é o caso do Fauno.

Esse processo de ter como influências obras existentes para ter como resultado um produto muito diferente do que é proposto por elas, pode ser encontrado em um dos manifestos do movimento modernista brasileiro, que é a antropofagia, na qual o escritor brasileiro “devorava” tudo aquilo que vinha do estrangeiro para “regurgitar” um produto genuinamente brasileiro, algo que acontece no filme, pois foi “devorada” a ideia central dos contos de fada, para ser “regurgitado” a adaptação sombria vista no mundo dos sonhos de Ofélia.

Nota: 8,5/10

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