Real – o plano por trás da história

Real – o plano por trás da história é um filme dirigido por Rodrigo Bittencourt e trata sobre a plano econômico que implantou o Real como moeda oficial brasileira e trouxe para níveis normais a alarmante inflação que atingia o país desde o começo da década de 80. O enredo se passa em sua maior parte na década de 90 e é centrado no economista Gustavo Franco (Emílio Orciollo Neto), que participou da equipe que ajudou a criar o Real, junto de outros nomes como Pérsio Arida (Guilherme Weber) e Edmar Bacha (Giulio Lopes) e sob o comando do então presidente do Banco Central Pedro Malan (Tato Gabus Mendes), do ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso (Norival Rizzo) e do Presidente da República Itamar Franco (Bemvindo Siqueira).

Quem for assistir esse filme esperando uma história que, por tratar de assuntos como política e economia, seja apresentada de maneira sisuda tal como um drama político de Oliver Stone, vai se decepcionar ao se deparar com o uso abusivo de fases de efeito e de atuações exageradas que em alguns casos beiram ao ridículo, principalmente nas cenas com o Fernando Henrique e o Itamar, que parecem saídas de uma esquete do Casseta & Planeta. Outro ponto que pode afastar o espectador é a maneira pouco didática que ele apresenta os temas econômicos e políticos, muito pouco da ideia que deu origem ao plano é entendida pelo público se não houver um conhecimento prévio do tema.

Quanto a escolha do protagonista do filme, há pontos positivos e negativos, a vantagem de ter o Gustavo Franco como personagem principal do filme é tornar a película mais atrativa e chamativa para o público, posto que a personalidade de Franco é naturalmente controversa, competitiva e autocentrada, o que facilita a formação de frases de efeito que o público facilmente assimila, ao mesmo tempo que dá um ritmo mais palatável para um enredo que, pelo assunto abordado, poderia se tornar monótono. No entanto há um problema em se dar tanto destaque a Franco, pois o filme acaba sendo muito mais uma cinebiografia dessa personalidade do que uma história sobre o Plano Real, isso é evidente se for observado o fato de que as ideias e discussões sobre o plano em si tem muito menos espaço no filme do que a trajetória de Franco, já que se somarmos a quantidade de tempo do enredo reservado para a vida acadêmica, pessoal e para atuação de Gustavo Franco já depois do implantação do Real, seja como presidente do Banco Central, seja a entrevista que ele dá para uma jornalista sobre o seu depoimento na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigava em 2003 o caso de corrupção no Banestado, fica bem maior que o tempo disponibilizado para explicar de fato no filme como se deu a origem da elaboração do Plano Real.

Personagens importantes para o Real foram eclipsados pelo Franco, caso dos economistas André Lara Resende e Pérsio Arida, que observaram a característica inercial da inflação brasileira, ou seja, boa parte da alta da inflação acontece por conta de expectativa de inflação, que faz com que os agentes do mercado reajustem os seus contratos na expectativa de uma inflação alta e isso acaba gerando um aumento da inflação no futuro. Uma economia que sofre muita influência desses reajustes de contrato com base em expectativa de inflação alta é chamada de indexada, para desindexar a economia brasileira, o Lara Resende e o Arida propuserem a criação de uma segunda moeda, que funcionaria paralela a principal. Pela proposta, que ficou conhecida como “Larida”, a moeda principal sofreria todos os efeitos da inflação enquanto a paralela passaria a ser valorizada e serviria de transição para uma nova que substituiria a moeda vigente. Isso foi posto em prática parcialmente durante o Plano Cruzado, em 1986, mas seu sucesso aconteceu em 1994, com o Cruzeiro Real, unidade monetária vigente da época, absorvendo os efeitos inflacionários, enquanto havia uma valorização da Unidade Real de Valor (URV), moeda que não existia, era  puramente virtual e que só funcionava porque a  população foi convencida de que ela tinha valor. O sucesso da URV permitiu que o Cruzeiro Real deixasse de ser adotado e fosse substituído por uma moeda forte, que é o Real.

Sobre a parte de montagem e encadeamento das cenas do longa, o filme peca por trazer cortes muitos abruptos entre uma cena e outra, além do roteiro não contribuir com diálogos  que facilitem a transição entre as cenas, apresentando muitas falas de personagens cujo raciocínio parece ter sido cortado no meio.

Apesar desses defeitos, no geral o filme é bom. Se não forem depositadas grandes expectivas de que seja um filme sério que explore de maneira profunda a política e economia brasileira e de que tenha personagens com psicológicos complexos, dá para absorver dele uma experiência divertida, visto que ele apresenta temas sérios e que poderiam ter um risco de serem apresentados de forma mais entediante, com um tom leve, ao mesmo tempo que não negligencia, ainda que isso não seja feito de forma suficientemente didática, os principais pontos dos fatos políticos e econômicos que circundam o Plano Real e a trajetória de Gustavo Franco.

Nota: 9/10cena-de-real-o-plano-por-tras-da-historia-1489793206455_v2_1191x752